CSA, Plantas Medicinais e Promoção da Saúde

A palestra da matéria a seguir ocorreu no âmbito do Grupo de estudos CSA como estratégia de promoção de saúde na qual a EAPSUS e a Matres são realizadoras e a CSA Brasilia e CSA Brasil apoiadores.

Parte 1

Qual é a relação entre CSA, Plantas Medicinais e Promoção de Saúde?

Na Roda de Conversa promovida ontem pelo grupo de estudos de CSA de Brasília juntamente com as especialistas em flora da Amazônia, Maria Alice e Júlia Freire os diálogos ocorreram em torno de CSA, cultivo de plantas medicinais, Amazônia, conhecimento tradicional e acadêmico, Hortas Urbanas, Economia do apreço, redes humanas e formação de comunidades.

Mais de 25 pessoas estiveram presentes, entre elas agricultoras, coagricultoras, engenheiras agrônomas, servidoras públicas, médicas, curiosas, simpatizantes, todas elas a fim de descobrirem juntas como fazer diferente, como criar laços entre si e com a consciência de um meio ambiente cada vez mais presente na vida de cada uma delas.

Na fala de um dos criadores do Projeto Reação[1] e da Horta urbana na 206 Norte em Brasília-DF, Igor Aveline é possível expandirmos o conceito de “Comunidade que Sustenta” para incluir o extrativismo, vindo ao encontro da fala de outras pessoas que perguntavam-se por que não suportar nesse modelo comunitário a Saúde, individual e também coletiva.

CSA, Saúde e Acolhimento

Maria Alice,  coagricultora da CSA Altiplano Leste e especialista em medicina tradicional da Amazônia trouxe à roda o acolhimento como base para um CSA. Sua mensagem:

“No cultivo das plantas produz-se mais que alimento: cultiva-se o apreço por si, pelo outro ser humano e pela Natureza, dentro e fora de nós, uma vez que ela não é fora, é também dentro.”

Essa consciência de acolhimento, de relação afetiva desenvolvida entre seres vivos é um dos vários caminhos para a saúde orgânica densa e sutil; corpórea, emocional e espiritual. Sinônimo de felicidade.

Na fala de Maria Alice pela vivência comunitária de anos na Floresta Amazônica:

“Alimentar-se da floresta é alimentar-se em vários níveis não só quanto à comida do corpo físico.”

1989/1990 – OnG Centro de Medicina da Floresta[2] (CMF)

Assim o grupo chega a partir de uma escuta atenciosa aos dizeres das terapeutas florais Maria Alice e Júlia Freire a idos de 1990. Ali temos o Centro de Medicina da Floresta, OnG focada na educação, pesquisa e trabalho com a comunidade local.

No resgate da medicina tradicional regional as relações se desenvolviam. Há a troca de conhecimento entre o pajé Severino Laurentino Dantas e Maria Alice. Estabelecem-se relações de confiança duradouras e que se tornam a base para todo o trabalho de resgate e valorização da medicina tradicional da Floresta.

Em algum momento da história daquelas pessoas outra de além-mar vem a somar: Mariana, médica europeia em sua busca de aprendizado sobre medicina natural e tudo mais que não se aprende em livros chega ao Brasil e com seus métodos e abordagens mais científicas cataloga, investiga juntamente com todos da OnG aquela riqueza natural de flora e fauna humana.

Mais uma vez percebe-se naqueles relatos das duas terapeutas florais o quanto o humano esteve presente nas relações de troca com a mata. Era gente cuidando das plantas, cuidando de gente, sendo cuidado por elas e aprendendo junto a viver em comunidade com objetivos legitimados a cada momento.

CMF e a escola: uma parceria

É nesse contexto que acontecem as parcerias, uma delas com a escola.

Mariana, menina ainda no início dos anos 90, era uma das estudantes que para além dos encontros oficiais participava junto àquela OnG noutros momentos pelo apreço e pela troca saudável ali estabelecida. Vimos uma foto dela carregando galhos de Cajirú mata a fora. Atualmente Mariana, com menos de trinta anos de idade, é presidente da OnG Centro de Medicina da Floresta.

Aquelas duas lindas terapeutas ali falando traziam com simplicidade e profundidade ensinamentos à roda. Numa das apresentações mostraram em diagrama como se dava a relação de ensino-aprendizagem, ou como termo utilizado Fábio Brotto em sua Pedagogia da Cooperação[3], como se dava a relação de ensinagem naquela comunidade.

Ao se ensinar se aprende. Ao se aprender se ensina. A Floresta ensina. Outro aprendiz ensina. Um aprendiz aprende. E ouso dizer pelas minhas andanças pelo mundo que também a Floresta aprendia com aquelas pessoas dedicadas ao seu trabalho coletivo.

20161123-diagrama-de-relacao-de-ensinagem-artigo-csa-e-saudeConsciência sutil e Sabedoria da Floresta

Nos trabalhos feitos na floresta e na comunidade o canto para pedir licença à ação extrativista para preparo do Floral estava presente. O trabalho com Floral é consciencial, necessita presença e abertura para ver o invisível, o sutil. Isso não só para acessar a assinatura da planta, mas para se deixar ser acessado, uma entrega mesmo.

Quanto à assinatura das plantas, havia um diagrama que indicava a relação da assinatura das plantas com suas partes e o denso e o sutil.

Duas presenças ilustres foram:

Andiroba (Carapa guianensis): expurgo. Depuração orgânica dos corpos sutil e denso

Mulateiro (Calycophyllum spruceanum): Protege a chama da vida. Força do Sol nascente.

20161123-niveis-de-atuacao-da-assinatura-das-plantas-artigo-csa-e-saudeConta-se que o Tijuaçú, lagarto da região, enfrenta a mata e seus desafios. Luta até com cobra. E não por não ser picado nunca, mas por saber o que fazer para se proteger, se curar dos efeitos da peçonha.

Diz-se que ele, ao ser picado, corre, corre, encontra a Surucuína, cava, cava até encontrar sua batata. Come-a como antídoto para o veneno da cobra e volta ao combate.

Como ele sabe da Surucuína? Como aprendeu isso? Como a descobre na mata? Segredos da Floresta. Segredos da Natureza. De uma Natureza também nossa, mas pouco praticado em algumas culturas…

Parte 2

Já na parte 2, o diálogo com perguntas e respostas prevaleceu. Renata Navega presenteou a todos com o vídeo “A natureza está falando|Camila Pitanga é a Amazônia” da série “A Natureza está falando”. Assista abaixo:

CONSERVATION.ORG

Então vamos às perguntas…

Plantar alimento versus plantar medicamento: há diferença?

Não. O que há é a diferença cultural do valor e utilidade de cada categoria. Faz-se a distinção entre o uso nutricional do alimento e o uso medicinal do alimento.

Como lidar com a medicina tradicional alopática?

Usar na necessidade, mas cuidar-se para não se precisar dela.

Pensar o “CSA para saúde”, com comunidade de garrafeiros, curandeiros, raizeiros e os saberes da medicina.

Como manter as redes de conhecimento sobre saúde naturalmente gerada?

  1. Cultivando as relações humanas, a valorização do que é local, regional, doméstico.
  2. Desenvolvendo o diálogo entre os saberes acadêmico e popular, local e global e nutrir/manter esse diálogo em comunidade.
  3. Relacionar-se, conectar-se com aqueles que fazem, aqueles que sabem.
  4. Resgatar culturas e hábitos tradicionais de valorização do que vem da Terra.

Como listar chás e tradições medicinais entre os CSAs e disponibilizá-lo?

Essa pergunta foi lançada como provocação de reflexão sobre como fazermos já e aqui o que temos visto ser feito na OnG Centro de Medicina da Floresta.

É possível cultivar em SAF (Sistema AgroFlorestal) plantas amazônicas no Cerrado?

Sim, mas mais vale a experimentação. Há plantas que são endêmicas, algumas adaptáveis e outras não.  E é importante dar-se valor ao que há no Cerrado e cultivá-lo.

Nas falas finais foi trazida que atualmente são mais aceitos os Florais, a Homeopatia, os chás, outros alimentos do dia a dia com fins medicinais e o próprio termo remédios vibracionais faz-se valer pelos estudos dos efeitos físicos na interação entre corpos.

Numa fala, Renata Navega trouxe-nos que desacelerar o que a mente nos dá como solução para possíveis problemas e perceber o tempo, o desenvolvimento natural do cultivo das plantas, assim como o do humano e do comunitário nos traz para o hoje, agora. E porque não dizer para a ação, para o simples, para o original, natural…

Contato Florais da Amazônia

http://www.floraisdaamazonia.com.br/pt/

E-mails

infofloraisdaamazonia@gmail.com

floraisdaamazoniadf@gmail.com

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[1] Projeto Reação – Facebook – https://www.facebook.com/projetoreacao206/

[2] Centro de Medicina da Floresta –

https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=4&cad=rja&uact=8&ved=0ahUKEwjH0rnS_7bPAhUHTZAKHcLGAGsQFgguMAM&url=http%3A%2F%2Fcentromedicinadafloresta.blogspot.com%2F&usg=AFQjCNEcm-grvg0UdEgb0XS6ooh08fS0TA&bvm=bv.134495766,d.Y2I

[3] Projeto Pedagogia da Cooperação – http://www.projetocooperacao.com.br/

 

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